Fusões entre grandes empresas frequentemente não trazem os resultados esperados em termos de desempenho corporativo e preço das ações.
Esse cenário é ainda mais evidente no setor de bens de consumo. Dos 45 grandes negócios realizados nesse setor desde 2000, cerca de 50% resultaram em severas perdas por desvalorização de ativos, e as cinco maiores operações não cumpriram o que prometeram, segundo analistas do BNP Paribas citados pelo The Wall Street Journal.
Na indústria alimentícia, a fusão entre a Kraft e a Heinz em 2015 é um caso emblemático de fracasso.
E agora, os investidores estão rejeitando fortemente a compra do braço de alimentos da Unilever (NYSE: UL) pela gigante de temperos McCormick (NYSE: MKC), uma operação de US$ 45 bilhões anunciada em 31 de março.
A Unilever e seus acionistas ficarão com 65% de participação na empresa resultante da fusão. O portfólio de alimentos da Unilever inclui a Hellmann’s, a marca de maionese mais vendida do mundo, e a Knorr, famosa por seus caldos em cubo. Com o negócio, a McCormick se consolida como um colosso de molhos e temperos.
Desde 30 de março, dia anterior ao anúncio da transação, as ações da Unilever caíram 7,4% e as da McCormick recuaram 10,1%. Mas, afinal, por que todos parecem odiar essa negociação?
Risco de integração na fusão
Primeiro, há o risco de integração. No passado, a McCormick lidou bem com aquisições menores, como a compra da marca de molho de pimenta Cholula por US$ 800 milhões em 2020. No entanto, a operação com a Unilever é uma situação totalmente diferente. A junção dobrará as vendas anuais da McCormick para mais de US$ 20 bilhões. Um crescimento dessa magnitude obviamente traz complicações.
“O risco de integração é alto”, observa Erin Lash, analista da Morningstar. Ela acredita que a diretoria pode até atingir sua meta de alcançar US$ 600 milhões em economia de custos com a fusão ao longo de três anos, mas aponta que parte dessa economia precisará ser reinvestida em inovação de produtos e marketing.
“Apesar dos méritos estratégicos da operação (como o aumento de escala e do alcance de distribuição em condimentos e produtos culinários por meio da Knorr e da Hellmann’s), achamos que isso pode ser uma manobra para estimular o crescimento em um setor onde os lucros estagnaram”, afirmou a analista. Após o anúncio da fusão, Lash reduziu sua estimativa de preço-justo para as ações da McCormick de US$ 68 para US$ 65. Na quinta-feira, os papéis eram negociados a US$ 49.
Para a Unilever, desfazer-se do seu braço de alimentos representa a decisão de focar exclusivamente em produtos de higiene pessoal e limpeza doméstica. Esse segmento tem um potencial de crescimento futuro maior do que a divisão de alimentos, mas ao custo de margens de lucro menores, escreve Diana Radu, também analista da Morningstar. O setor de alimentos registrou uma margem operacional ajustada de 23% em 2025, contra 19% do restante da empresa.
Unilever aposta em atuação exclusiva
“Embora a ambição da Unilever de se tornar uma empresa focada exclusivamente em higiene pessoal e limpeza (com uma execução mais direcionada) faça sentido estrategicamente, essas categorias são mais fragmentadas e competitivas do que o setor de alimentos, no qual a Unilever tem uma clara liderança de mercado”, explicou Radu.
James Edwardes Jones, analista da RBC Capital Markets, afirma que a Unilever não fez um bom negócio. “O que realmente não conseguimos entender é por que a Unilever está se desfazendo de uma divisão dominada por duas marcas (das quais possuía 100%) em troca de um prêmio de controle mínimo”, escreveu em um comentário citado pela revista Barron’s.
Ele também não vê justificativa para a Unilever deixar seus acionistas com uma participação de 55% (a própria empresa manterá 10%) em um negócio de alimentos tão “pulverizado”.
Os defensores das fusões costumam chamá-las de “ganha-ganha” (onde ambas as empresas saem vitoriosas), mas os investidores parecem enxergar esta como um “perde-perde”.
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