Os problemas da Boeing simplesmente não desaparecem

Dan Weil Analista de Notícias do Mercado

Justo quando parecia que a Boeing (NYSE: BA) finalmente havia se recuperado de sua infinidade de dificuldades, a gigante aeroespacial dos EUA tropeçou novamente.

Na semana passada, a empresa anunciou que atrasaria as entregas de alguns aviões 737 Max, após encontrar uma falha em versões recém-construídas de sua principal aeronave de fuselagem estreita. O problema é uma fiação danificada, decorrente de um erro de fabricação, segundo a empresa. Ela não informou quais reparos são necessários nem quantos aviões foram afetados.

O experiente jornalista da Barron’s, Al Root, prevê que o problema da fiação terá apenas “um impacto modesto e temporário no fluxo de caixa”. A Boeing disse que todos os 737 Max em operação continuarão voando com segurança.

Os reparos podem ser concluídos em poucos dias em cada avião, afirmou a empresa. O atraso pode limitar as entregas do 737 neste mês. Ainda assim, a Boeing espera entregar cerca de 500 aeronaves este ano.

As apostas são altas, já que o 737 é fundamental para o futuro da Boeing. O analista da Morningstar, Nicolas Owens, estima que metade do valor da empresa venha dos modelos 737. “Aumentar a taxa de produção e entrega desses jatos é o maior motor da lucratividade e do fluxo de caixa a curto e longo prazo”, escreveu.

Problemas com os jatos

O 737 Max já causou enormes dificuldades para a Boeing, começando com dois acidentes trágicos que deixaram 346 vítimas entre 2018 e 2019. A frota foi proibida de voar nos EUA entre 2019 e 2020. A Boeing também enfrentou problemas de produção com seu jato 787 ao longo dos anos.

Mesmo agora, o chefe da Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA), Bryan Bedford, disse no mês passado que a empresa precisa fazer mais para recuperar a capacidade de certificar a segurança de voo de seus aviões e outras atribuições, segundo a Bloomberg. Por outro lado, ele também afirmou que a Boeing está fazendo um “grande progresso”.

O 737 não é o único problema da Boeing. O diretor financeiro Jay Malave disse que a margem operacional da divisão comercial cairá para um patamar negativo entre 7,5% e 8% neste trimestre, em comparação com os 37% positivos no quarto trimestre, segundo o Wall Street Journal.

Isso se deve a custos maiores que o esperado na integração de sua fornecedora Spirit AeroSystems. A Boeing comprou a empresa no ano passado por 8,3 bilhões de dólares, incluindo dívidas.

Além disso, a empresa enfrenta problemas em sua divisão de defesa, que responde por 30% da receita. Os principais desafios: execução deficiente de programas com contratos de preço fixo, falhas técnicas graves em sistemas importantes e problemas persistentes na cadeia de suprimentos.

A Boeing nem sempre esteve em apuros. Por décadas, a empresa centenária foi valorizada pela qualidade e segurança de seus aviões. Havia até um ditado popular: “Se não é Boeing, eu não vou.” Mas a cultura acabou mudando de um foco em engenharia para um foco em lucros a curto prazo.

História amarga

A mudança ocorreu após a compra da concorrente McDonnell Douglas em 1997. Os executivos dessa empresa assumiram o controle da Boeing e implementaram a mudança.

Harry Stonecipher, ex-CEO da McDonnell Douglas que liderou a Boeing entre 2003 e 2005, disse uma frase que ficou famosa: “Quando dizem que eu mudei a cultura da Boeing, esse era o objetivo, para que ela fosse administrada como um negócio em vez de uma grande empresa de engenharia.”

Mas foi justamente seu status como uma grande empresa de engenharia que fez da Boeing um grande negócio. A perda de foco em projetos de ponta e segurança mergulhou a empresa em turbulência. A ideia era impulsionar as ações. Mas desde o início de 1998, elas subiram 305%, contra 578% do índice S&P 500. Nos últimos seis meses, os papéis da Boeing caíram 8%.

A empresa é grande demais para quebrar, já que é a única fabricante de grandes jatos comerciais nos EUA e uma das duas no mundo, junto com a Airbus (CBOE: AIR).

Ao que tudo indica, o CEO Kelly Ortberg, que assumiu em 2024, está fazendo um bom trabalho para tirar a Boeing do abismo. Mas a empresa ainda tem um longo caminho pela frente.

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